23/05/2016

Tempo para o síndico

Por: Alexandre Marques

FUNÇÃO EXIGE MUITOS NOVOS APRENDIZADOS PARA QUEM ACABA DE OCUPAR O POSTO

O maior aliado de síndico neófito é, sem sombra de dúvida, o tempo. Como um vinho de boa qualidade que precisa de tempo para atingir o máximo dos atributos pretendidos pelo vinicultor e que o faz tão apreciado pelo consumidor, o representante máximo do condomínio também precisará de tempo para atingir o máximo da performance que dele se espera.

Da mesma forma, pode-se comparar à intimidade que o sindico terá com a massa condominial a intimidade de um casal recém esposado, onde a intimidade que se tinha dará lugar a uma cumplicidade até então desconhecida.

Ele precisa vivenciar o cargo, sentir seus desafios, aprender com os pequenos erros, aprender a interpretar para si mesmo os sinais, a leitura que fará dos desafios diários de sua gestão. Afinal, está lidando com dezenas, quando não centenas, milhares de pessoas que, nessa condição tem anseios e expectativas pautadas em suas próprias existências e, que, inconscientemente transferem ao síndico eleito em assembleia todas suas expectativas, sonhos e desejos. Eles também irão cobrar de forma implacável para que faça satisfatoriamente jus a confiança que lhe foi depositada, quando de sua eleição. Ou algum síndico, conselheiro, administrador de condomínios, duvida ou olvida disso?

Nós que atuamos há algum tempo com condomínios e seu inesgotável universo de experiências e aprendizados sabemos que o síndico eleito, ainda mais, quando assim promovido por uma margem apertada de votos em relação ao segundo candidato, tem uma tendência de ser fortemente cobrado pela “oposição”. Logo no início de seu mandato, onde será vigiado, criticado, avaliado a cada passo, ato, gesto, circular, aprovação ou desaprovação de qualquer coisa que faça, e isso, para os mais desviados é o maior equívoco que se pode cometer em uma gestão que esta apenas começando.

O síndico novato precisa de tempo para conhecer os cantos, encantos e desencantos do cotidiano condominial. Precisará de tempo para verificar pastas, documentos, arquivos, papéis em geral. Aprender sobre o passado do condomínio para poder entender o presente e pensar no futuro de sua gestão.

Precisará de apoio de seu conselho consultivo e demais moradores - pelo menos uma parte deles. Assim, como uma criança acolhida no seio familiar, ser incentivado e encorajado a dar passos cada vez maiores, escolhas cada vez mais seguras, e, tornar-se dessa forma um gestor apto ao cargo como todos esperam dele.

Iguala-se essa experiência a do funcionário recentemente admitido para trabalhar em uma empresa que precisa familiarizar-se com as rotinas, colaboradores, parceiros, para saber como lidar, interagir com cada um como se espera dele, fiel a política comercial desta firma.
E, como sabemos, isso leva tempo por mais hábil que a pessoa seja no trato com os demais e a novidade da situação.

Da mesma forma, precisa que a administradora de condomínios o apóie. Que esteja lá para ele quando precisar, e mais, que haja como um sábio mestre que orienta ao aluno, ao discípulo a pensar, instigue-o ao raciocínio lógico e crítico, e, não simplesmente coloque o peixe na ponta da vara para ele, pois, se assim agir, estará cometendo dois erros graves e sérias consequências para ela mesma. Estará usurpando funções, atribuições e decisões, que cabem somente a ele síndico e estará atraindo para sua órbita uma responsabilidade que não lhe pertence, que está acima de sua esfera administrativa, extrapolando, desta forma, os poderes que lhe são atribuídos por mandato.

Segundo erro, estará tirando do síndico de forma egoísta a chance de aprender com seus próprios erros de julgamento e percepção. Digo egoisticamente, pois, claro que é mais fácil muitas vezes ir e executar dada tarefa, ainda mais quando o prazo é exíguo ou se têm muitos afazeres do que ensinar, explicar, orientar como fazer e o por que disso, de se resolver dada questão de um jeito e, não, de outro.

Assim, como se vê, tornar-se um síndico bom naquilo que está fazendo para que ele corresponda a expectativa e desejos é uma coisa que depende de vários fatores, da colaboração das pessoas que o circundam, aliás, como qualquer atividade que dependa de interação humana.

Desta forma, antes de cobrar de seu síndico de forma implacável um desempenho hercúleo, uma genialidade davinciana, uma exatidão cirúrgica, reflita sobre o quanto você colaborou para que ele tenha tido acesso a um processo de aprendizado, compreensão, entendimento, diálogo com as pessoas a sua volta, qual foi a receptividade que ele teve de você, destas pessoas, da administradora, prestadores de serviços, etc. 

Aí sim, somente depois de refletir por um momento sobre isso - chegando a conclusão que teve positivamente acesso a tudo isso de forma satisfatória, plena, com tempo suficiente, que você mesmo, se estivesse no lugar dele para passar por tudo isso de forma segura teria e, ele não aproveitou essa oportunidade, aí então, poderá, deverá até cobrar dele o desempenho que se espera.

Do contrário, coloque-se ao lado dele, ajude-o, afinal, o benefício de uma boa gestão é de todos, inclusive seu. A diferença dos demais é o sentimento que você terá de que fez a coisa certa, que ajudou alguém, que construiu algo positivo e, essa satisfação, única e própria, ninguém tirará de você ou sentirá no seu lugar.


Alexandre Marques
 é advogado militante na área de Direito Condominial, relator do TED-OAB-SP, pós-graduado em Processo Civil pela PUC SP, especialista em Direito Imobiliário pelo UniFMU, diretor de ensino da Associação de Síndicos de Condomínios Residenciais e Comerciais de São Paulo, professor, consultor e Colunista de diversos jornais, portais e revistas de tema jurídico em condomínios.


 

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